segunda-feira, agosto 10, 2009

Cena: O $enado federal cheio, de cadeiras vazias. Presidindo está ele, el bigodon, o patriarca do clã, o queridinho do barbudo, o fiel da balança. Subitamente, o velho gaúcho, não o caudilho, já morto, mas o outro, o histórico, enche o peito e, olhando profundamente nos olhos do presidente da casa maior de tolerância, se dirige ao púlpito. El bigodon, sem reação, assiste o caminhar impávido colosso sem mexer um músculo. Outros $enadore$, também surpresos, aguardam o que virá a seguir.

"Minhas estimadas senadoras, Meus nobres colegas.

Tomo da palavra nesse momento angustiante para toda a nação que assiste, estupefacta, o show de desmandos e horrores que varrem nossos gabinetes tal vento minuano assobiando pelos pampas. Tudo isso por culpa de vossa excelência (vira-se para bigodon e aponta o dedo, em riste, firme). Não tenho mais dúvidas que vossa excelência cometeu toda sorte de descalabros, desde indicações de amigos até contratações obscuras. Vossa excelência tem que apear dessa cadeira, pedir o chapéu e sumir na poeira da história...

(neste momento entra, trincado, o que foi sem nunca ter sido, babando e vociferando contra o gaudério velho: "Vossa excelência engula suas palavras e as digira como quiser, duela a quien duela")

Retrucou o velho gaúcho: Vossa excelência foi apeado do poder por conta de um dos maiores escândalos da história política desse país. Se esse fosse um país justo e sério, e graças a Deus não o é, vossa excelência nunca mais pisaria nesse templo sagrado da locupletação. Vossa excelência é moleque. Acha mesmo que este olhar de gazela esfomeada me mete medo? Pede pra sair ou cale-se e aprenda.

(silêncio no plenário)

Continuo então de onde fui interrompido. Vossa excelência, senhor presidente, cometeu atos desabonadores e estamos agora todos paralisados, como ovelhas, sem poder cometer nosso trabaho em paz. Tudo porque vossa excelência não teve a paciência para esperar que as eleições de 2010 permitissem a volta da filha de vossa excelência ao poder, em seu curral. Estamos pagando caro por sua ansiedade, senhor presidente.

(o cangaceiro aponta o dedo para o gaudério velho: "vossa excelência respeite o presidente e me respeite")

O gaúcho retrucou "vossa excelência foi chutado deste plenário e tomou de assalto nosso partido tranformando-o, explicitamente, em um partido de malfeitores, ávidos e ganaciosos. Vossa excelência e seus asseclas são umas bestas, não aprendem, e pecam pela soberba de saber tudo sobre desvios e maracutaias. Estamos aqui desde cabral, o pedro não o sérgio".

Continuando. Vossa excelência, senhor presidente, tem que renunciar, tem que renunciar porque somos todos fisiológicos, venais e nepotistas. Mas vossa excelência levou essas práticas tão a fundo que afloraram, tal hemorróidas em bunda de peão, todas as mazelas que sangram os cofres públicos desse país. Vossa excelência tem que apear dessa cadeira e pedir desculpas à nação. Tenho certeza que arrumaremos um jeito de vossa excelência não perder sua fortuna. Pergunto a vossa excelência se algum dia algum senador da república foi sequer punido aqui nessa casa maior de tolerância?

(Voz no fundo: "teve o playboy, velho gagá". Declaração esta que faz que o velho gaudério perca a, já pouca, paciência.)

Vossa excelência é um imbecil. Vossa excelência esquece que ele mentiu, e quem é mentiroso não pode ser contado como senador da república, porque nesta casa de tolerância todos faltamos com a verdade, mas com o eleitor. Não vale como contagem. E gagá é a sua mãe, a quem conheço muito bem.

(vira-se para o plenário silencioso)

Vossas excelências tem que ouvir a voz das ruas. O povo pede que sejamos duros. E, como raposa velha da política, digo que apear do poder o presidente desta casa maior de tolerância não irá trazer prejuízos aos planos para o ano que vem. Prejuízos esses que já estamos sentindo agora, que não conseguimos passar um projeto e, assim, receber o nosso devido quinhão. Me despeço dessa tribuna parafraseando uma cantora que fez muito sucesso recentemente.

(vira-se para a tropa de choque do bigodon)

Vão tomar no cu. Vão tomar no cu. Vão tomar no cu, bem no meio do seus cus."

(Essa é uma histórica história de ficção científica, qualquer semelhança com personagens reais, vivos ou mortos, é uma mera coincidência. Faz parte da blogagem coletiva promovida pelo DO.

Este texto faz parte da coletânea "Crônicas da pocilga", em breve nas melhores casas do ramo.



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