quinta-feira, julho 24, 2003

Aos governantes e à família brasileira,

Perdi o meu único filho.

Ninguém, a não ser outra mãe que tenha passado por semelhante
tragédia, pode ter experimentado dor maior.

Mesmo sem ter sido dada qualquer publicidade à missa que ontem
oferecemos à alma de meu filho, Luís Fernando Soares Zacchini, mais
de cem pessoas compareceram. Em todos os olhos havia lágrimas.
Lágrimas sinceras de dor, de saudade, de empatia. Meus olhos refletiam
todos os prantos derramados por ele, por mim, por seu filhinho, por sua
esposa, por todos parentes e amigos. Por todos os sacrificados na
catástrofe do Aeroporto de Congonhas.

Há muito eu sabia que desastres aéreos iriam acontecer. Sabia que os
vôos neste país não oferecem segurança no céu e na terra. Que no
Brasil a voracidade de vender bilhetes aéreos superou o respeito à
vida humana. A culpa é lançada sobre um número insuficiente de mal
remunerados operadores aéreos ou sobre as condições das turbinas dos
aviões.

Um Governo alheio a vaias é responsável pelo desmonte de uma das mais
respeitáveis e confiáveis empresas aéreas do mundo, a VARIG, em
benefício da TAM, desde então, a principal provedora de bilhetes
pagos pelo Governo. Que a opinião pública é desviada para supostos
erros de bodes expiatórios, permitindo aos ambíguos incompetentes que
nos governam continuarem sua ação impune. Que nossos aeroportos não
têm condições de atender à crescente demanda de vôos cujo preço
é o mais caro do mundo.

Quando os usuário aguardam uma explicação, à falta de respeito ao
cidadão juntam-se o escárnio e a cruel vulgaridade de uma ministra
recomendando aos viajantes prejudicados que relaxem e gozem. Assuntos
de alcova não condizentes com a reta postura moral e respeito exigidos
no exercício de cargos públicos. Assessores do presidente deste país
eximem-se da responsabilidade e do compromisso com a segurança de
nosso povo exibindo gestos pornográficos.

Gestos mais apropriados a bordéis do que a gabinetes presidenciais. Ao
invés de se arrependerem de uma conduta chula, incompatível com a
dignidade de um povo doce e amável como o brasileiro, ainda alardeiam
indignação, único sentimento ao alcance dos indignos.

Aqueles que deveriam comandar a responsabilidade pelo tráfego aéreo no
Brasil nada fazem exceto conchavos. Aceitam as vantagens de um cargo sem
sequer diferenciarem caixa preta de sucata. Tanto que oneraram e
humilharam o país ao levar o material errado para ser examinado em
Washington. Essas são as mesmas autoridades agraciadas com louvor e
condecorações do Governo em nome do povo brasileiro, enquanto toda a
nação, no auge de sofrimento, chorava a perda de seus filhos.

Tudo isto eu sabia. A mim, bastava-me minha dor, bastava meu pranto,
bastava o sofrimento dos que me amam, dos que amaram meu filho. Nenhum
choro ou lamento iria aumentar ou minorar tanta tristeza. Dores iguais
ou maiores que a minha, de outras mães, dos pais, filhos e amigos dos
mortos necessitam de consolo. A solidariedade e amor ao próximo
obrigam-nos a esquecer a própria dor.

Não pensei, contudo, que teria de passar por mais um insulto: ouvir a
falsidade de um presidente, sob a forma de ensaiadas e demagógicas
palavras de conforto.

Um texto certamente encomendado a um hábil redator, dirigido mais à
opinião pública do que a nossos corações, ao nosso luto, às nossas
vítimas. Palavras que soaram tão falsas quanto a forçada e patética
tentativa que demonstrou ao simular uma lágrima. Não, francamente eu
não merecia ter de me submeter a mais essa provação nem necessitava
presenciar a estúpida cena: ver o chefe da nação sofismar um
sofrimento que não compartilhava conosco.

Senhores governantes: há dias vejo o mundo através de lágrimas
amargas mas verdadeiras. Confundem-se com as lágrimas sinceras e puras
de todos os corações amigos. Há dias, da forma mais dolorosa
possível, aprendi o que é o verdadeiro amor. O amor humano, o Amor
Divino. O amor é inefável, o amor é um sentimento despojado de
interesse, não recorre a histriônicas atitudes políticas.

Não jorra das bocas, flui do coração!
E que Deus nos abençoe!

Adi Maria Vasconcellos Soares


(Carta escrita por Adi Maria Vasconcellos Soares para as autoridades
brasileiras. Adi Maria é mãe de Luiz Fernando Soares Zacchini, de 41
anos, passageiros do vôo da TAM. Luiz Fernando era casado e deixou um
filho pequeno).

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